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Editora: 12min
São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo passaram o mês de agosto convocando toda a população de 6 meses a 59 anos para tomar a vacina contra o sarampo — inclusive quem já tinha o esquema completo. A medida foi recomendada pelo Ministério da Saúde depois da confirmação de um surto localizado nas três cidades: 23 casos no estado, sendo 20 na capital, dois em São Bernardo e um em Guarulhos, segundo a Secretaria de Estado da Saúde. Dos 23, 16 eram pessoas sem histórico de vacinação ou com o esquema incompleto.
No sábado 15 de agosto houve mutirão nas três cidades, com Dia D em São Bernardo do Campo e postos extras abertos. Os postos ficaram lotados. A Secretaria estadual informou que cerca de 660 mil doses da tríplice viral foram aplicadas nas três cidades desde 3 de agosto — 500 mil na capital, 90 mil em Guarulhos e 70 mil em São Bernardo. O Ministério da Saúde diz ter distribuído mais de 10 milhões de doses no país em 2026, com cerca de 3,6 milhões aplicadas, e destinou outras 3,2 milhões para reforçar o estoque.
A orientação também alcança quem não mora nas três cidades, mas trabalha nelas diariamente ou eventualmente. Para Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), a região metropolitana concentra risco por ser porta de entrada: "Há milhares de pessoas de todo o mundo entrando em São Paulo diariamente. Um grande aeroporto como Guarulhos, uma grande rodoviária onde chegam ônibus de vários países aqui nessa região."
A vacina contra o sarampo integra o Calendário Nacional de Vacinação para pessoas de 12 meses a 59 anos e é gratuita no SUS. A rotina prevê a tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) aos 12 meses e a segunda dose aos 15 meses, geralmente com a tetraviral, que acrescenta a proteção contra catapora. Dos 5 aos 29 anos, recomendam-se ao menos duas doses; dos 30 aos 59, ao menos uma.
A campanha atual acrescenta duas exceções. A primeira é a dose zero: em situação de circulação do vírus, bebês de 6 a 11 meses podem ser vacinados, porque são mais vulneráveis a formas graves. Essa dose não substitui as duas do calendário. A segunda é a dose extra para quem já está imunizado. Mônica Levi, presidente da SBIm, explica que normalmente se considera protegido quem tomou duas doses, mas que o cenário paulista é exceção: "se você está em algum desses locais, mesmo que você esteja vacinado com duas doses, é preciso ser imunizado novamente". Não há risco em doses além das do calendário, e quem já teve sarampo também deve se vacinar. A janela vai até 1º de setembro, dentro da Campanha de Multivacinação iniciada em 3 de agosto.
Há contraindicações. A tríplice viral é feita com vírus vivos atenuados e não é indicada para gestantes, pessoas com imunossupressão grave, quem tem histórico de reação alérgica grave a componentes como a neomicina e crianças menores de 6 meses. Pessoas com 60 anos ou mais não entram na rotina porque, segundo o Ministério da Saúde, viveram em período de intensa circulação da doença e provavelmente têm imunidade natural. Segundo o ministério, as reações mais comuns são leves — dor no local, febre baixa, manchas — e reações graves são extremamente raras. A eficácia é de cerca de 93% com uma dose e 97% com duas.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou em 15 de agosto que a cepa em circulação em São Paulo é do mesmo genótipo das que circulam nos Estados Unidos e no Canadá, países em surto desde o ano passado. Os casos paulistas são classificados como importados ou relacionados à importação. Levi cita ainda a chegada de infectados vindos da Bolívia e da Guatemala, e diz que parte dos casos segue em investigação.
O pano de fundo é continental. A Organização Pan-Americana da Saúde alertou que 2026 já é o ano com mais casos de sarampo nas Américas em 22 anos: até 18 de julho, 47.459 confirmados e 44 mortes, contra 15.011 casos e 32 mortes em todo o ano de 2025. Guatemala, México, Estados Unidos e Peru concentram 95% dos registros. Nos Estados Unidos, é o maior surto em 35 anos. O Brasil somava 24 casos e mantém o certificado de eliminação do sarampo, perdido em 2019 e reconquistado em 2024, depois de dois anos sem transmissão local.
A cobertura vacinal é o outro fator. A meta é 95% da população; no Brasil, a primeira dose da tríplice viral está em 89,2% e a segunda em 73,5%, segundo dados do Ministério da Saúde citados por O Globo. Em fevereiro de 2026, o Painel de Vacinação registrava cerca de 94% na primeira dose e 79% na segunda em bebês.
O sarampo é uma das doenças infecciosas mais transmissíveis conhecidas: em ambiente com pessoas não vacinadas, um único infectado pode contaminar até 18 outras. O vírus se espalha pelo ar e permanece viável no ambiente por até duas horas. A transmissão começa antes do diagnóstico, cerca de quatro dias antes dos sintomas.
As complicações não são raras. Pneumonia atinge cerca de uma em cada 20 crianças doentes e é a causa mais comum de morte pela doença entre crianças pequenas. Otite média aguda atinge uma em cada dez e pode causar perda auditiva permanente. Encefalite ocorre em uma a quatro a cada mil crianças, e cerca de 10% delas morrem. Entre uma e três a cada mil crianças doentes morrem por complicações. Kfouri descreve ainda um efeito posterior: "O sarampo deixa o que nós chamamos de uma amnésia imunológica, ou seja, durante três a seis meses até, você vê os indivíduos que foram cometidos pelo sarampo mais vulneráveis a internações, a hospitalizações, a outras infecções." Não há tratamento específico.
As buscas por "sarampo" no Google no Brasil subiram mais de 910% na primeira semana de agosto, o maior patamar desde fevereiro de 2020. Junto com o interesse vieram informações falsas nas redes. Em 14 de agosto, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária divulgou um informe rebatendo boatos, com destaque em caixa alta: "NÃO existem vacinas experimentais sendo utilizadas no país. Vacinas NÃO causam intoxicação. Vacinas NÃO contêm ingredientes secretos ou partes de corpos humanos." A agência afirma que as vacinas em uso passaram por todas as etapas de verificação e seguem monitoradas por farmacovigilância.
Padilha associou a alta de casos na América do Norte a movimentos antivacina: "Países contaminados por movimento antivacina, como os Estados Unidos, estão vivendo hoje o maior surto de sarampo dos últimos 35 anos."
No sábado 8 de agosto, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro publicou nas redes um vídeo em que mostra ter ido a uma agência de correio nos Estados Unidos assinar uma declaração que isenta sua filha da obrigatoriedade de vacinas no país. "Aqui nos Estados Unidos existe a liberdade dos pais decidirem o que é melhor para o futuro dos seus filhos", disse.
Segundo a VEJA, a publicação caiu mal na campanha de Flávio Bolsonaro, que no mesmo período apresentou um trecho de plano de governo propondo "ampliar exames preventivos, imunização e produção nacional de vacinas". Na leitura da campanha do senador, o irmão "jogou contra". O governador Tarcísio de Freitas, questionado na CNN, disse que o vídeo não atrapalhou a campanha paulista: "as pessoas estão muito esclarecidas acerca da vacina". Em 18 de agosto, ao apresentar seu plano de saúde, Ronaldo Caiado citou o surto paulista, defendeu uma campanha para recuperar a confiança na caderneta — "enquanto o governante não assume essa discussão, prevalecem as teses mais malucas do mundo" — e, questionado sobre a queda de confiança nas vacinas, evitou atribuir o fenômeno nominalmente ao governo Bolsonaro.
Se você mora, trabalha ou passa com frequência por São Paulo, Guarulhos ou São Bernardo do Campo, a orientação é procurar um posto e tomar a dose de reforço mesmo com a caderneta em dia — inclusive quem já teve sarampo. O prazo dessa recomendação vai até 1º de setembro, a vacina é gratuita e não há risco em receber doses extras. Se em casa há bebê de 6 a 11 meses, é o caso de perguntar sobre a dose zero, lembrando que ela não elimina as duas doses do calendário aos 12 e aos 15 meses. E vale verificar as contraindicações antes: gestantes, pessoas com imunossupressão grave e quem já teve reação alérgica grave a componentes da vacina precisam de avaliação médica.
Fora dessas três cidades, o gesto é outro e mais simples: pegar a caderneta e conferir. Segundo o infectologista David Uip, quem está com o esquema completo e não circula pela região do surto não precisa de dose adicional. Quem tem esquema incompleto ou nenhuma dose se encaixa na regra geral — duas doses dos 5 aos 29 anos, ao menos uma dos 30 aos 59.
Vale também saber reconhecer o quadro: febre acima de 38,5°C com manchas vermelhas que começam no rosto e atrás das orelhas, acompanhadas de tosse seca, conjuntivite e mal-estar. Diante da suspeita, a orientação é usar máscara, evitar contato e avisar o serviço de saúde antes ou ao chegar. Febre que persiste depois das manchas é sinal de alerta, sobretudo em crianças menores de 5 anos.
Daqui até a eleição de 2026, há um segundo fio para acompanhar. A vacinação apareceu no plano de governo de Flávio Bolsonaro, na apresentação de Caiado e na resposta de Tarcísio à imprensa na mesma semana do surto — e as posições dentro do campo bolsonarista não foram uniformes. Observar como cada candidato trata o assunto quando questionado, e não só o que consta no programa escrito, é um jeito de acompanhar em que ponto essa disputa está.
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